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domingo, 24 de novembro de 2013

FORDLÂNDIA UMA CIDADE AMERICANA NA AMAZONIA - PARTE II




Matem todos os americanos

A revolta de trabalhadores na Amazônia contra os gerentes de Fordlândia.

PARTE II. 



SEGUNDO CAPITULO

O controle se estendia à higiene e à saúde. A empresa exigia que os trabalhadores se submetessem à coleta de amostras de sangue para exames e a vacinações contra varíola, febre amarela, febre tifoide e difteria. Quando os operários iam aos relógios de ponto no fim do dia, eram esperados por funcionários da equipe médica, que lhes davam comprimidos de quinino. Muitas vezes relutavam em tomá-los, pois a alta dosagem prescrita pelos médicos da Ford provocava náuseas, vômitos, dores de estômago, erupções cutâneas e pesadelos. Escondendo os comprimidos sob a língua, logo que estavam fora de vista os trabalhadores competiam para ver quem conseguia cuspi-los mais longe. Os médicos também insistiam que todos tomassem quenopódio contra parasitas, sem examiná-los para saber se o medicamento era necessário. "Os americanos acham que todos nós estamos cheios de vermes", dizia um deles.

Ao amanhecer, quando o apito convocava os trabalhadores a seus postos, Fordlândia quase sempre estava envolvida pela neblina. Os gerentes americanos aprenderam que a neblina matinal sobre o rio Tapajós acelerava a disseminação dos fungos que des-
truíam as seringueiras. Mas, naqueles primeiros tempos, antes do ressecamento fatal das árvores, eles achavam linda a neblina, em especial quando se misturava aos primeiros raios de luz através das árvores. As colinas ondulantes e os vazios na área plantada já não pareciam uma terra devastada, pois mais de 8 milhões de metros quadrados de seringueiras de 1,80 metro de altura, alinhadas em filas perfeitas, começavam a revelar novas copas de folhas. A paisagem era particularmente encantadora em torno do complexo residencial dos americanos. A fileira de casas, apesar de ficar a quase 2 500 metros da doca, estava situa-da numa elevação acima de uma curva do Tapajós, dando aos moradores uma vista panorâmica do largo rio. Atrás das casas, como um divisor da plantação, Archie Weeks deixara uma faixa de floresta, criando o que os moradores chamavam de "lugar da natureza".

Com a maior parte dos perigos da selva eliminados, era mais fácil contemplar seus prazeres. Trilhas limpas com rastelos, folhas em decomposição que normalmente cobrem o solo da floresta se misturavam com samambaias, palmeiras, cedros falsos e paineiras enfeitadas com trepadeiras, bromélias, begônias e outras flores tropicais. Borboletas enormes voavam sobre as flores, suas asas com brilhos azuis e negros. Naquele mês de dezembro, uma dúzia de pinheiros vivos havia sido enviada a Fordlândia, para serem usados como árvores de Natal pelos gerentes americanos com saudades de casa.

Aos poucos, antes que o soar do segundo apito sinalizasse o início oficial do dia, os sons matinais da floresta davam lugar ao barulho de famílias que despertavam, mulheres ralando mandioca e a conversa, no começo baixa e depois alegre, dos homens que se agrupavam. Os trabalhadores vinham em sua maioria dos dormitórios dos solteiros ou do assentamento da plantação. Também vinham da margem oposta do rio, com os remos das canoas espalhando água e suas lâmpadas a querosene perfurando a neblina espessa, ajudando-os a navegar. Outros chegavam de Pau d'Água ou de pequenos assentamentos, nos limites da plantação, que resistiam às tentativas da empresa de comprá-los ou fechá-los. Cartões de ponto eram batidos, ignições ligadas, instruções dadas, e o dia de trabalho começava.

No final de 1930, parecia que Fordlândia superara o difícil começo e se estabilizara numa rotina viável. A maior parte das instalações estava construída e equipes trabalhavam na mata, limpando mais terras, plantando mais seringueiras e construindo mais estradas. John Rogge, nomeado gerente, providenciara para que um suprimento constante de sementes fosse enviado da reserva indígena dos mundurucus. Rogge também havia enviado David Riker ao Alto Amazonas, até o Acre, no extremo oeste do Brasil, para garantir mais sementes, algumas das quais já haviam sido plantadas. Equipes de saneamento ainda policiavam as acomodações onde viviam os trabalhadores brasileiros com suas famílias, inspecionando latrinas e cozinhas e certificando-se de que as roupas lavadas estavam penduradas de maneira adequada, o lixo sendo disposto de forma higiênica e os currais mantidos secos, bem drenados e sem fezes.

Ocupados em fazer funcionar a plantação e a serraria, os gerentes deixaram de insistir que todos os empregados solteiros vivessem dentro da propriedade, embora tentassem forçá-los a al-
moçar e jantar no recém-construído refeitório da empresa. A administração também pouco fez, nos primeiros anos, para providenciar entretenimento aos operários. Para a maioria deles, o dia de trabalho terminava às três da tarde. Além do jantar, os solteiros não tinham muito o que fazer, a não ser ir a bares e bordéis das imediações. Aos domingos, pequenos comerciantes de comunidades próximas chegavam em canoas, barcos a vapor e veleiros, ainda amplamente usados na época, montando um agitado mercado na margem do rio onde vendiam frutas, verduras, carne, aviamentos, roupas e livros.

As greves, brigas de faca e levantes que marcaram os dois primeiros anos de Fordlândia desapareceram. Durante todo o ano de 1930 não houve incidentes importantes. Rogge concluiu que o destacamento de soldados armados, que ficara estacionado na plantação desde o levante de 1928, não era mais necessário. O relatório de fim de ano de Fordlândia, compilado no início de dezembro de 1930, elogiava, se não a ética, a "docilidade" dos trabalhadores brasileiros, que "não se ressentem do fato de serem supervisionados por homens de outras nacionalidades".

Mas Rogge manteve de prontidão um rebocador e uma lancha - não na doca principal, mas rio acima -, acessíveis por uma trilha que saía da vila americana.

A confusão começou no novo refeitório - uma estrutura semelhante a um armazém - inaugurado poucas semanas antes. Para fazer cumprir o regulamento pelo qual os empregados solteiros tinham de fazer as refeições na plantação - tanto para desencorajar a ida a bares e bordéis quanto para incentivar uma dieta saudável -, Rogge decidiu, depois de consultar a sede da empresa, que o custo das refeições seria deduzido automaticamente dos pagamentos quinzenais.

O novo sistema entrou em vigor em meados de dezembro. Os trabalhadores comuns se sentavam de um lado do salão, os artesãos qualificados e supervisores, do outro, e ambos eram servidos por garçons. Os operários reclamaram da dieta decidida por Henry Ford, que consistia de farinha de aveia e pêssegos enlatados, importados de Michigan, para o café da manhã, e arroz integral e pão de trigo integral para o jantar. Também não gostaram das deduções automáticas do pagamento, pois não poderiam gastar o dinheiro onde quisessem. Isso também significava que tinham de fazer fila fora do refeitório, para que funcionários do escritório pudessem registrar a frequência, anotando os números dos crachás. Ainda assim, o esquema parecia estar dando certo.

Chester Coleman chegou à plantação para inspecionar as cozinhas em 20 de dezembro. Antes mesmo de terminar seu primeiro dia em Fordlândia, sugeriu que o serviço de garçons fosse eliminado. Recém-chegado do seu cargo de supervisor em River Rouge, com todas as linhas de montagem e esteiras em funcionamento, Coleman propôs que todos os homens também fizessem fila para comer. Rogge concordou e a mudança entrou em vigor no dia 22. Ele encarregou o impopular Kaj Ostenfeld, que trabalhava com a folha de pagamento, de deduzir o custo das refeições dos salários e se certificar de que o plano funcionasse sem problemas. A sede da empresa acreditava que Ostenfeld fosse um homem de "honestidade inquestionável", embora achasse que ele poderia ser mais educado, e tenha sugerido que ele deveria voltar a Detroit para um "aprimoramento adicional". Há muito tempo os trabalhadores estavam insatisfeitos com suas atitudes provocadoras.

Durante cerca de uma hora, 800 homens entraram e saíram sem problemas. Mas Ostenfeld ouviu alguns mecânicos qualificados e supervisores reclamarem. "Quando chegaram do trabalho", disse, "eles esperavam se sentar à mesa e serem servidos pelos garçons" - e não serem obrigados a esperar em fila e comer com os trabalhadores comuns. À medida que a fila aumentava, as reclamações se tornavam mais incisivas. "Não somos cachorros", protestou alguém, "para que a empresa nos mande comer dessa maneira." O calor sufocante não ajudava. O antigo refeitório tinha teto de palha e as paredes eram abertas até a metade. Apesar da aparência rústica, era bem ventilado. Já o refeitório novo era de concreto. O teto baixo de amianto, piche e metal galvanizado retinha o calor e transformava o prédio num forno.

Os cozinheiros tiveram problemas para manter o fluxo de comida e os escriturários levavam tempo demais para anotar os números dos crachás. Do lado de fora, os trabalhadores empurravam, tentando entrar. Do lado de dentro, os que esperavam pela comida se agrupavam em torno dos serventes, que não conseguiam colocar o arroz com peixe nos pratos com rapidez suficiente.

Foi então que Manuel Caetano de Jesus, um pedreiro de 35 anos do Rio Grande do Norte, forçou a entrada no refeitório e enfrentou Ostenfeld. Já havia animosidade entre os dois, devido a desavenças passadas, e à medida que a discussão entre eles se acalorava, operários de roupas sujas, chapéus de palha e suados se aglomeravam em volta. Ostenfeld sabia um pouco de português, de seu emprego anterior na concessionária Ford do Rio, mas isso não significava que entendesse Manuel de Jesus - que provavelmente falava rápido e com sotaque nordestino. De modo geral, os homens da Ford entendiam pouco o português, criando situações em que ambas as partes podiam confundir ignorância com hostilidade. Mas Ostenfeld entendeu o significado de Jesus retirar o crachá da camisa e devolvê-lo.

Ostenfeld riu. Como declarou mais tarde Jesus, "era como se ele estivesse se divertindo à minha custa", coisa que "enfureceu" os que estavam próximos, acompanhando a discussão. Segundo a versão de Ostenfeld, Jesus se dirigiu à multidão e disse: "Fiz tudo por vocês; agora vocês podem fazer o resto."

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