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terça-feira, 26 de novembro de 2013

FORDLÂNDIA - UMA NOVA DETROIT NA AMAZONIA



Matem todos os americanos

A revolta de trabalhadores na Amazônia contra os gerentes de Fordlândia.

PARTE 3.



TERCEIRO CAPITULO
A reação foi furiosa, relembrou uma testemunha, como "atear fogo à gasolina". O "terrível barulho" de panelas, copos, pratos, pias, mesas e cadeiras sendo quebrados serviu de alarme, levando ao refeitório mais homens, armados com facas, pedras, canos, martelos, facões e porretes. Ostenfeld, juntamente com Coleman, que havia presenciado toda a cena sem saber nada de português, pulou num caminhão em busca de refúgio. Enquanto se apressavam para contar a Rogge o que estava acontecendo, ouviram alguém gritar: "Vamos quebrar tudo e pegar o Ostenfeld."

Com a fuga de Ostenfeld, a multidão ensandeceu. Depois de demolir o refeitório, destruíram "tudo de quebrável que estivesse no caminho, o que os levou ao prédio do escritório, à usina de força, à serraria, à garagem, à estação de rádio e ao prédio da recepção". Cortaram as luzes da plantação, destruíram janelas, atiraram uma carga de carne no rio e inutilizaram medidores de pressão. Um grupo de homens tentou arrancar os pilares do píer, enquanto outros atearam fogo à oficina, queimaram arquivos da empresa e saquearam o depósito. Os amotinados se voltaram em seguida contra as coisas mais diretamente associadas à Ford, destruindo todos os caminhões, tratores e carros. Para-brisas e faróis foram espatifados, tanques de gasolina perfurados e pneus cortados. Vários caminhões foram empurrados para dentro de valas e pelo menos um foi jogado no Tapajós. Por fim, se voltaram para os relógios de ponto e os despedaçaram.

Um grupo foi até Pau d'Água para pegar bebidas, enquanto outro correu para incitar mais manifestantes. Sem saber o que estava acontecendo, Archie Weeks quase atropelou um grupo de homens armados de porretes e facas. Girou todo o volante e acelerou, mas não conseguiu evitar uma chuva de pedras que arrebentaram seu vidro traseiro. Quando se sentiu a salvo, Archie escondeu o carro e foi a pé até a vila residencial dos americanos.

Ao saber da rebelião, Rogge, que se preparava para jantar em casa, despachou um brasileiro de confiança para telegrafar a Belém e pedir reforços antes que a multidão tomasse de assalto a estação de rádio. Em seguida, ordenou que Curtis Pringle, o encarregado da plantação de seringueiras, evacuasse a maioria dos americanos, sobretudo as mulheres, que estavam "muito nervosas". Alguns fugiram na lancha que Rogge mantinha de prontidão. Outros se valeram de "todos os meios de transporte, como ca-
noas, barcos a motor, cavalos etc.".

Com o restante do seu pessoal, Rogge foi ao encontro de um grupo de cerca de quarenta empregados que avançavam para as casas dos americanos.

"Quais são as suas queixas?", perguntou ele.

"Somos mecânicos, pedreiros e carpinteiros, não garçons", responderam.

Rogge disse que eles tinham razão e prometeu resolver o problema, mas somente se acalmassem seus companheiros. Mas os homens enviados em busca de bebidas tinham retornado e o motim estava "em plena efervescência". Quando Rogge ouviu um grupo de trabalhadores bêbados cantando "O Brasil para os brasileiros. Matem todos os americanos", decidiu que era hora de partir. Ordenou que seus homens fossem para o rebocador, mas Archie Weeks e David Riker, que tinha acabado de voltar do Acre, ficaram isolados da rota de fuga. Correram para a selva e se esconderam por dois dias, enquanto continuava o tumulto.

O gerente Rogge e o resto de seu pessoal chegaram em segurança ao barco e passaram a noite ancorados no meio do Tapajós. Enquanto as ondas do rio batiam contra o casco, o "tremendo barulho" que mostrava a destruição de Fordlândia continuou manhã adentro.

O levante de Fordlândia foi uma decorrência secundária da revolução que havia abalado o Brasil meses antes e levado Getúlio Vargas ao poder. A ascensão de Vargas se deu quase sem derramamento de sangue, mas o entusiasmo da insurreição gerou a sensação de que as velhas regras e hierarquias não precisavam mais ser respeitadas. Nas semanas anteriores ao levante de dezembro, muitos americanos de Fordlândia falaram da atmosfera carregada - provavelmente o motivo para Rogge manter um rebocador de prontidão. "Alguns radicais entre os operários qualificados", escreveu James Kennedy, agente de Fordlândia em Belém, "interpretaram erradamente o sucesso da revolução em todo o Brasil, em outubro, e promoveram agitações contra tudo que pertencesse a estrangeiros." Trabalhadores chegaram a hastear bandeiras vermelhas sobre seus dormitórios. Mas não há dúvida de que a ascensão de Getúlio Vargas salvou Fordlândia: o homem que ele nomeou para substituir Eurico de Freitas Valle no governo do Pará concordou imediatamente em dar a ajuda necessária à retomada da plantação.

A revolta começou numa segunda-feira. Naquela noite, James Kennedy telegrafou para Juan Trippe, o lendário fundador da Pan American Airways, em Nova York, para lhe contar que Fordlândia estava "sob o domínio da plebe". Trippe havia aberto uma linha entre Belém e Manaus, com uma escala em Santarém, e Kennedy perguntou se um dos aviões poderia transportá-lo até a plantação com alguns soldados. Se não partissem logo, alertou Kennedy, "em 24 horas o lugar seria uma ruína completa". Trippe concordou imediatamente.

Na manhã seguinte, terça-feira, tendo conseguido um destacamento militar da base local do Exército, Kennedy embarcou num hidroplano Sikorsky, junto com o tenente Ismaelino de Castro e três soldados armados. Decolando de Belém, o avião levou cerca de sete horas para chegar à área. No início da tarde, ao amerrissar na frente da cidade de Aveiros, pouco abaixo de Fordlândia, Kennedy e Castro foram recebidos por Rogge e outros americanos (o restante havia fugido para Santarém). Kennedy e o tenente decidiram passar a noite em Aveiros e seguir viagem para Fordlândia no dia seguinte. Pela manhã, ficaram sabendo que a plantação estava silenciosa. Mas, no mesmo dia, moradores de Pau d'Água e outras aldeias na periferia de Fordlândia marcharam para o escritório da propriedade com armas de fogo e facões. Irritados com os esforços da empresa para expulsá-los, eles talvez tenham sido incitados por Francisco Franco, que teve um relacionamento cada vez mais antagônico com Fordlândia, agravado pelas tentativas de Kennedy de forçá-lo a vender sua propriedade em Pau d'Água.

Kennedy e Castro ordenaram ao piloto do Sikorsky que fizesse voos rasantes para dispersar os manifestantes. O avião desceu em seguida no Tapajós e foi até a doca de Fordlândia. A calma parecia restabelecida, mas Castro e seus homens desembarcaram sozinhos, dizendo a Kennedy que esperasse a bordo.

Uma delegação escolhida pelos funcionários recebeu o tenente com uma lista de exigências à empresa. A primeira delas era a demissão de Ostenfeld. As outras estavam ligadas ao direito de livre circulação. Os trabalhadores exigiam comer o que quisessem e onde quisessem. Estavam cansados de comer pão de trigo integral e arroz integral "por motivos de saúde", segundo as instruções de Henry Ford. Queriam frequentar os bares e restaurantes que surgiram em torno da plantação e entrar em embarcações, supostamente para comprar bebidas, sem precisar pedir permissão. Os solteiros reclamavam das acomodações: cinquenta deles amontoados em um dormitório.

Nas semanas que se seguiram à revolta, jornais regionais publicaram reportagens com outras críticas aos gerentes da empresa. Manuel Caetano de Jesus, o pedreiro acusado de instigar a rebelião, contou ao jornal Estado do Pará que os operários detestavam os relógios de ponto. Não só porque não estavam acostumados com aquele tipo de controle, mas também porque os relógios ficavam longe de seus postos de trabalho, tornando difícil marcar o ponto, "sob pena de perderem os salários". Mario Pinheiro do Nascimento reclamou ter de pagar pelas refeições, o que não estava no contrato que assinara, mas também ressaltou a "má qualidade" da comida. O pessoal da cozinha, disse ele, com frequência servia peixe estragado, "intragável até para um cão faminto".

Outros reclamaram que nos dias de pagamento a empresa, dependente de remessas de dinheiro de Belém, muitas vezes ficava sem caixa. Com isso, dava vales no lugar de dinheiro. Mas, se um empregado tentasse sair, a empresa dificultava a "troca dos vales por dinheiro". O hospital e a equipe médica tinham feito muito para melhorar as condições de saúde dos moradores de Fordlândia. A taxa de mortalidade por "beribéri e outras febres desconhecidas", no entanto, continuava alta. As surucucus continuavam a picar as mãos dos mateiros. Outros se queixaram de ter de trabalhar com chuva, e das idas obrigatórias ao hospital, mesmo quando não havia motivo.

Henry Ford se opunha visceralmente à representação coletiva dos trabalhadores. Chamou os sindicatos de "a pior coisa que já golpeou a terra". À medida que os sindicatos conquistavam força e popularidade, ele acrescentava líderes sindicalistas à sua galeria de inimigos. Em 1930, Ford podia citar uma série de vitórias contra campanhas lideradas pelos militantes das duas maiores centrais sindicais - a iww e a cwawu da afl -, no setor automobilístico. E não aceitaria menos que isso na Amazônia. Os homens que enviou ao Brasil sabiam muito bem o modo de pensar do patrão em relação à inquietação operária, e aceitavam como dogma que a empresa "não permitiria que grevistas ditassem como nosso negócio deve ser dirigido".

Assim, Kennedy disse ao tenente Castro que não iria atender às reivindicações dos grevistas "em hipótese alguma". Ele, de fato, aproveitou a baderna reinante para, nas palavras de Matt Mulrooney, "limpar a casa". Telegrafou a José Antunes, dono do barco Zé Antunes, que se encontrava em Belém esperando para levar até Fordlândia uma carga de produtos chegados de Nova York, juntamente com 200 funcionários recém-contratados. Kennedy lhe disse para descarregar o barco, dispensar os trabalhadores e ir ao Bank of London para fazer uma retirada de emergência.

Na véspera do Natal, enquanto Kennedy esperava pelo dinheiro, encostou na doca de Fordlândia um barco transportando 35 soldados "armados e equipados com metralhadoras". As tropas inspecionaram a plantação e confiscaram facas, armas de fogo e qualquer outro objeto que pudesse ser usado como arma. Em seguida, Kennedy ordenou que os soldados expulsassem os moradores de Pau d'Água e de outras vilas que cercavam Fordlândia. Fechou os bares, restaurantes e bordéis que por tanto tempo incomodaram os americanos. "Ponham tudo abaixo", ordenou aos soldados. Depois que as famílias foram forçadas a sair e suas casas foram derrubadas, Kennedy enviou o esquadrão de saneamento para "fazer uma limpeza", queimar as latrinas e jogar cal virgem nas fossas. Pouco depois, com o apoio do governo Vargas, forçou Francisco Franco a lhe vender as terras onde ficava Pau d'Água a "preço de banana".

O Zé Antunes atracou em Fordlândia com o dinheiro solicitado no dia de Ano Novo. Ladeado por soldados brasileiros armados, Kennedy reuniu os empregados e lhes pagou "por todo o tempo até 22 de dezembro". Em seguida demitiu toda a mão de obra, com exceção de umas poucas centenas de homens.

Com Fordlândia em ruínas e danos estimados em mais de 25 mil dólares, ele aguardou que Detroit lhe dissesse o que fazer.

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